Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão nossa semeadura
Quem poderá fazer aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada pela noite escura
Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão, estende-se, infinito
Imenso monolito, nossa arquitetura
Quem poderá fazer aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame pela vida afora
Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão
Quem poderá fazer aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morre, nasce, trigo, vive morre, pão
Drão
(Gilberto Gil)
São Paulo, 24 de março de 2011
Já faz algumas semanas que vinha ensaiando durante as madrugadas em que acordava e fazia uma ronda pela casa, entrando de fininho no quarto para ouvir o sono profundo que vinha daquele ambiente, outrora mais cheio.
Mas nada que eu pudesse fazer poderia antecipar o que sinto agora. Já passei por isso outras duas vezes, mas hoje, com a ida da terceira, sinto que a barra vai pesar de vez. Me preparei tanto, me fiz tão forte, mas não consigo parar de pensar que queria voltar a fita (ou o DVD, para ser mais atual) e ver de novo aquelas cenas em que estávamos juntas, rindo de tudo, brigando por nada, sonhando acordadas e dormindo aninhadas.
O barulho era tanto naquela casa, que tenho certeza que essa minha incrível habilidade de concentração e multiprocessamento veio do fato de que eu tinha que apertar o botão mute e deixar apenas ativo os pensamentos que me manteriam capaz de executar outras operações, além daquela de observar feliz que, mesmo no caos, eu vivia no paraíso.
Essa casa de hoje vai dormir um pouco mais silenciosa e muito mais triste, porque não terei todos os meus beijos de boa noite. Mas ainda assim, a noite será boa, porque sonharei para vocês os melhores sonhos, e neles, vocês estarão sorrindo tranquilas e concretizando tudo aquilo que construímos durante esse tempo todo no ninho-mãe.
Até breve, até logo, até o final de semana próximo, seja ele qual for!
Com amor,
Meire

Não gostaria de saber, mas quase sempre reconheço as mentiras que me contam. Mesmo que demore um tempo. Ao longo da vida isso é bom e facilita.
- Como foi que você quebrou meu vaso?
- Foi sem querer, mas como sabe que fui eu?
- Sabendo…
Não sei. Na verdade, apenas sinto. Algumas vezes consigo construir a cena na cabeça, como um flash back. Algumas vezes as verdades chegam a mim sem que eu queira.
Ao longo da vida isso é bom e facilita. Mas às vezes só machuca.
Venha, deite a faça parte dos meus devaneios
E sinta que o amor chegou primeiro
No corpo, na alma e nas formas de você
Veja, meu quarto está deserto
Meus quadros submersos
Das coisas de você
Minha mesa lá do centro
Com você reparto
Creia
Vamos chamá-las de caixas de chocolate. Elas sempre estiveram ali, mas nossa miopia contumaz nos fez agir como se fossem parte do mobiliário, e não suculentas regalias que poderiam ser devoradas, se quiséssemos, ou se deixássemos de insistir na abstinência.
Só que, veja bem, mesmo imóveis e inexpressivas - ora bolas! - um dia a gente pode sentir uma vontade imensa de abri-las e experimentar, um a um, o bombom que vem dentro. E mesmo aquele recheado de abacaxi, com licor de caju, que sempre fica no fundo da caixa, rejeitado, vai nos fazer lamber os beiços.
Não devemos nos culpar se cedemos à tentação, afinal, eles também cederam e acabaram comendo cada um dos bolinhos que estavam em cima da mesa. Até aqueles sem cereja, sem cobertura, abatumados e com prazo de validade vencido. Eles nunca foram seletivos e achavam isso cabível.
Eu proponho um banquete farto. Não sei se agora, porque estamos com um gosto amargo na boca (e não é do chocolate). Mas num futuro, onde possamos fazer da gula o pecado que irá nos redimir.

Acabei de pintar as unhas de vermelho.
Enquanto isso, pensava nas nossas infelizes semelhanças.
Mas pensei também no que nos difere. E entendi que somos assim, no possível caso de querermos nos vingar:
Você seria capaz de, num momento de fúria, disparar um revolver e atingir uma artéria, que o faria sangrar, lentamente, até morrer. Seria lento, mas iminente. Mesmo assim, permitiria ver a agonia nos olhos dele.
Eu seria capaz de, dia após dia, mês após mês, colocar pó de vidro em sua comida, preparada com esmero. E lentamente ver sua vida definhar. E também veria a agonia nos olhos dele, e junto, aquela incerteza do “será que ela é capaz?” , que ficaria ecoando em sua mente. Isso seria meu prazer maior.
Claro, isso tudo metaforicamente falando.
(Risos maléficos)