Chuva na vidraça

Essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo. A frase do Caio Fernando Abreu serve perfeitamente para o dia de hoje e para os dias (meses) que se antecederam. O frio é bom porque nos faz menos sociais, e menos sociais nos obrigamos a olhar para nós mesmos e colocarmos sob uma lente os fatos.

Sim, os fatos. As pessoas e os fatos. As coisas que nos levam aos fatos e, ao mesmo tempo, longe das pessoas. O frio é bom porque com ele vem a certeza de que o calor da alma só virá quando exorcizarmos os fatos - e as coisas e as pessoas - que nos congelam. Isso é fato.

Sem surpresas

No fundo sempre sonhamos em saber o que nos espera na próxima esquina.

O que seremos quando crescer é uma das primeiras perguntas que nos fazem ainda crianças e aí começa o jogo de adivinhação. Como seremos, onde estaremos, onde iremos, com quem nos casaremos são algumas das questões que buscamos resposta.

Lembro bem dos jogos adolescentes onde brincávamos de vidente e fingíamos que entendíamos os sinais que vinham de um baralho ou de uma simpatia.

Logo sentenciávamos: vou viajar o mundo, vou conhecer lugares distantes e exóticos, vou comprar uma fazenda, vou me casar com um alguém legal, vou ter filhos, talvez meia dúzia. E sentíamos uma fugaz felicidade que vinha do fato de acharmos que, mesmo por instantes, éramos donos do nosso futuro.

E seríamos tudo aquilo que sonhávamos e o final seria sempre feliz.

Mas na verdade, não sabemos de nada e nunca saberemos. Todas as certezas mudam repentinamente e repetidamente. O que foi ontem, hoje já não é mais. Mudam também os sonhos. Mudam os destinos, os lugares que iremos, tudo…

E é aí que a gente descobre a graça da vida: não saber o que vamos encontrar quando virarmos a esquina. E o melhor é poder imaginar que a paisagem que veremos no quarteirão seguinte será a mais deslumbrante da nossa vida!

Please, please me – ou, como eu quero

Duas músicas que eu gosto muito falam sobre o mesmo tema e eu me dei conta só hoje. Domingo ouvia Leoni cantando em seu show de 2004 “Como eu quero”. Ele explicava à plateia o verdadeiro sentimento da canção que, até então, era conhecida e entoada como uma balada, mas que, para ele, o compositor, estava mais para um rock mais pesado, dando um tom mais impositivo à letra. Aos desavisados, ele diz que a música trata muito mais de mandar um recado dizendo “esse é o jeito que eu te quero” e não como pensam os românticos “puxa, quanto eu te quero!”. E completava: “o que você precisa é de um retoque final”. Ou seja, a música expressa, nitidamente, a forma que ele espera que a outra pessoa seja.

E hoje, numa dessas coincidências, durante um intervalo de aula, peguei uma revista velha (dezembro de 2010), que trazia uma matéria sobre o aniversário de morte de John Lennon, e o que ele estaria fazendo hoje, se estivesse vivo. A certa altura, o texto traça uma linha das músicas mais significativas, e dentre elas, Please, please me. A frase que complementa o refrão estampa a reclamação: “…like I please you”. E lá pelas tantas, a música decreta “I know you ever even try girl”.

Ambas falam de exigências não cumpridas, de expectativas não correspondidas. Somos humanos e queremos sempre que o outro seja o reflexo daquilo que enxergamos como ideal. Um ideal que estabelecemos como forma de prisão e talvez uma maneira inconsciente de nos auto-boicotarmos, pois no fundo, no fundo, sabemos que são inatingíveis.

Mesmo assim, nos lançamos à alucinante batalha para modificarmos algo que já é e sempre será. O que você precisa é de um retoque final, vou transformar o seu rascunho em arte final. Ainda assim, please, please me.

http://www.youtube.com/watch?v=he0B0VMxCsw

Drão

Drão

O amor da gente é como um grão

Uma semente de ilusão

Tem que morrer pra germinar

Plantar nalgum lugar

Ressuscitar no chão nossa semeadura

Quem poderá fazer aquele amor morrer!

Nossa caminhadura

Dura caminhada pela noite escura

Drão

Não pense na separação

Não despedace o coração

O verdadeiro amor é vão, estende-se, infinito

Imenso monolito, nossa arquitetura

Quem poderá fazer aquele amor morrer!

Nossa caminha dura

Cama de tatame pela vida afora

Drão

Os meninos são todos sãos

Os pecados são todos meus

Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar

Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão

Quem poderá fazer aquele amor morrer

Se o amor é como um grão!

Morre, nasce, trigo, vive morre, pão

Drão

(Gilberto Gil)

São Paulo, 24 de março de 2011

Era uma casa muito engraçada

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Já faz algumas semanas que vinha ensaiando durante as madrugadas em que acordava e fazia uma ronda pela casa, entrando de fininho no quarto para ouvir o sono profundo que vinha daquele ambiente, outrora mais cheio.

Mas nada que eu pudesse fazer poderia antecipar o que sinto agora. Já passei por isso outras duas vezes, mas hoje, com a ida da terceira, sinto que a barra vai pesar de vez. Me preparei tanto, me fiz tão forte, mas não consigo parar de pensar que queria voltar a fita (ou o DVD, para ser mais atual) e ver de novo aquelas cenas em que estávamos juntas, rindo de tudo, brigando por nada, sonhando acordadas e dormindo aninhadas.

O barulho era tanto naquela casa, que tenho certeza que essa minha incrível habilidade de concentração e multiprocessamento veio do fato de que eu tinha que apertar o botão mute e deixar apenas ativo os pensamentos que me manteriam capaz de executar outras operações, além daquela de observar feliz que, mesmo no caos, eu vivia no paraíso.

Essa casa de hoje vai dormir um pouco mais silenciosa e muito mais triste, porque não terei todos os meus beijos de boa noite. Mas ainda assim, a noite será boa, porque sonharei para vocês os melhores sonhos, e neles, vocês estarão sorrindo tranquilas e concretizando tudo aquilo que construímos durante esse tempo todo no ninho-mãe.

Até breve, até logo, até o final de semana próximo, seja ele qual for!

Com amor,

Meire

Dom

Não gostaria de saber, mas quase sempre reconheço as mentiras que me contam. Mesmo que demore um tempo. Ao longo da vida isso é bom e facilita.

- Como foi que você quebrou meu vaso?

- Foi sem querer, mas como sabe que fui eu?

- Sabendo…

Não sei. Na verdade, apenas sinto. Algumas vezes consigo construir a cena na cabeça, como um flash back. Algumas vezes as verdades chegam a mim sem que eu queira.

Ao longo da vida isso é bom e facilita. Mas às vezes só machuca. 

A cozinha dos meus sonhos

Admito sem nenhum constrangimento: amo cozinhar e adoro uma cozinha, principalmente uma bem equipada. E dava até para eu trabalhar normalmente direto dessa cozinha. Ao invés de homeoffice, vou ter minha kitchenoffice!

Caixas de chocolate

Vamos chamá-las de caixas de chocolate. Elas sempre estiveram ali, mas nossa miopia contumaz nos fez agir como se fossem parte do mobiliário, e não suculentas regalias que poderiam ser devoradas, se quiséssemos, ou se deixássemos de insistir na abstinência.

Só que, veja bem, mesmo imóveis e inexpressivas - ora bolas! - um dia a gente pode sentir uma vontade imensa de abri-las e experimentar, um a um, o bombom que vem dentro. E mesmo aquele recheado de abacaxi, com licor de caju, que sempre fica no fundo da caixa, rejeitado, vai nos fazer lamber os beiços.

Não devemos nos culpar se cedemos à tentação, afinal, eles também cederam e acabaram comendo cada um dos bolinhos que estavam em cima da mesa. Até aqueles sem cereja, sem cobertura, abatumados e com prazo de validade vencido. Eles nunca foram seletivos e achavam isso cabível.

Eu proponho um banquete farto. Não sei se agora, porque estamos com um gosto amargo na boca (e não é do chocolate). Mas num futuro, onde possamos fazer da gula o pecado que irá nos redimir.

Duas definições

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Acabei de pintar as unhas de vermelho.
Enquanto isso, pensava nas nossas infelizes semelhanças.

Mas pensei também no que nos difere. E entendi que somos assim, no possível caso de querermos nos vingar:
Você seria capaz de, num momento de fúria, disparar um revolver e atingir uma artéria, que o faria sangrar, lentamente, até morrer. Seria lento, mas iminente. Mesmo assim, permitiria ver a agonia nos olhos dele.
Eu seria capaz de, dia após dia, mês após mês, colocar pó de vidro em sua comida, preparada com esmero. E lentamente ver sua vida definhar. E também veria a agonia nos olhos dele, e junto, aquela incerteza do “será que ela é capaz?” , que ficaria ecoando em sua mente. Isso seria meu prazer maior.

Claro, isso tudo metaforicamente falando.

(Risos maléficos)