
Essa é uma história não contada. Eu a repito apenas para você, dia após dia.
Nós nos conhecemos no primeiro dia de trabalho. Fomos contratados para o mesmo departamento, mas para cargos diferentes. A empresa era a maior desenvolvedora de softwares gráficos e de games e despontava como uma das mais inovadoras e a que mais faturou naquele ano. Por isso, sempre buscavam jovens talentos, pessoas com nosso tipo de perfil. Você sempre teve um currículo notável. Na faculdade seus projetos eram arrojados e extremamente engenhosos. Na verdade, era muito difícil entender logo de cara os projetos que você desenvolvia, tamanha a sua genialidade. Você era vanguarda. Estava sempre à frente dos outros e talvez, por isso, alguns o tinham como visionário. Eu também me destacava como engenheira, mas minha habilidade era outra: eu transformava projetos mirabolantes em negócios milionários.
Foi assim com o protótipo que eu soube que você estava desenvolvendo no melhor estilo Bill Gates: na garagem da sua casa. Começamos a nos envolver por iniciativa minha. Eu achava muita graça no seu jeito distraído e me sentia muito estimulada pelo seu intelecto. No começo você era distante porque nunca acreditou em relacionamentos amorosos. Entendo agora que você não tinha desenvolvido habilidade para entendê-los, preferindo ficar de fora de um improvável romance que, segundo suas próprias palavras, transferia recursos inestimáveis do cérebro em funções que poderiam ser classificadas como imprevisíveis.
Dessa mistura insólita nasceu um relacionamento muito intenso, que a maioria apostava que seria um estrondoso fracasso. Cinco anos, no máximo, diziam. Mas contrariando as expectativas, nos casamos pouco depois que começamos a sair. A cerimônia, nada convencional, inverteu a tradição de os noivos ganharem presentes para a casa nova. Nós demos brindes aos poucos convidados - cerca de 30. A ideia foi minha, mas você apoiou. Decidimos que naquele mesmo dia celebraríamos dois contratos: nosso casamento e o início da nossa empresa. Distribuímos entre os convidados uma ação no valor de um por cento. Minha retórica irrepreensível os fez crer que aquilo valeria muito dali uns cinco anos. Em contrapartida, eu pedi apenas que nossos amigos depositassem na conta da empresa, se achassem justo, um valor simbólico. Todos eles, como eu previ, depositaram voluntariamente muito mais do que o esperado. Incontestavelmente eu sabia fazer negócios. Inegavelmente, eu sabia seduzir.
Os primeiros meses da nossa convivência foram frenéticos em todos os sentidos. Você se sentia muito estimulado por mim, de forma intelectual e sexual. Era absurdamente instigante a sensação de euforia que você experimentava depois do sexo e após os debates e discussões que mantínhamos a todo momento, já que morávamos e trabalhávamos no mesmo local. Tudo se mesclava. Era uma simbiose perfeita.
Você ainda tinha dúvida sobre o que te dava mais prazer. Teorizar ou transar. Divagações filosóficas fundamentadas por argumentações muito bem construídas ou sexo, sexo, sexo e aquele torpor que tomava conta de você logo em seguida, tornando-o quase um vegetal. Mas com com o tempo, você me disse que acabara se viciando. A todo momento e mais, queria estar dentro de mim. Era uma experiência que jamais teria pensando em reproduzir em seus trabalhos, pois nunca imaginou que o amor era capaz de desencadear aquilo.
Fiquei alucinada com minhas descobertas - percebi, por exemplo, que depois de uma trepada, a química produzida em meu corpo era tamanha que seria capaz de me manter acordada por longos períodos, o que me tornava extremamente mais produtiva, mais criativa. Observei também que, a cada dia, aumentava o grau de dependência que você tinha de mim. Por outro lado, não deixei de notar que, ao contrário do que acontecia comigo, seu rendimento caía vertiginosamente.
Cheguei a um impasse. Deveria dar vazão àquela histeria que se apossava de mim depois que nossos fluidos se misturavam, ou seria melhor arranjar um jeito de ficar na superficialidade e dar a você apenas o necessário, uma espécie de ração controlada, a ponto de não romper o magnífico fluxo da sua genialidade? Mas e eu? Precisava do sexo tanto quanto você, e ainda mais, pois minha mente já se antecipava com o que viria depois.
Como sempre, fui mais razão do que emoção, e o caminho natural me pareceu ser condescendente até o ponto necessário. Contraditório, eu sei. Isso me causou enorme dor e pensei em qual seria a melhor maneira de compensar aquele mecanismo conquistado pela nossa intimidade. A dialética era estimulante, de fato, mas não substituía a adrenalina do sexo. Porém, sabia que você deveria se desintoxicar de mim, aos poucos e, de preferência, sem perceber. Afinal, você sempre foi distraído e eu contava com isso.
Estávamos indo bem. Você começou a desenvolver um game ultra sofisticado, usando como princípio uma espécie de jogos de realidades alternadas, ou arg’s, como chamamos. Com ele, criou um universo que transitava entre a realidade virtual e a concreta.
Você foi assumindo essa nova vida que tanto te fascinava e enquanto isso, literalmente era sugado para dentro dela. Passava horas modificando o código do programa a fim de conseguir tornar o game o mais real possível. Era sua nova família. Se é que um dia você quis fazer parte de uma.
Enquanto você produzia desenfreadamente e se afastava de mim na mesma velocidade, eu procurei novas maneiras de te substituir. Busquei conforto no nosso assistente que nunca foi tão brilhante quanto você, mas era um amante complacente. Ele me ajudava a manter o foco, na medida que supria minhas necessidades, sejam elas quais fossem.
Nunca imaginei que você perceberia algo. Também não fiz esforço para esconder nada. Meu pragmatismo me cegou a ponto de eu não conseguir entender que te perdia por não permitir que você se entregasse a mim da maneira que você sabia. Você nunca foi raso. Era intenso, mesmo que irresoluto. Mas ao mesmo tempo, nunca foi capaz de lutar por mim. Nem sequer argumentar contra a minha insanidade de te querer egoisticamente, usando de ti somente aquilo que me aprouvia. E me viu, sem nada fazer, a não ser sofrer do seu jeito, jogar com meu amante fazendo dele mais uma peça descartável no meu tabuleiro.
Nesse momento de dor quase física - agora eu sei - você se lançou em seu projeto, aflito em reproduzir através dele uma partícula de vida, irreal que fosse, mas perfeita.
Para minha perplexidade, você conseguiu criar algo próximo à perfeição. Seu game produzia detalhes capazes de tornar qualquer vida melhor que a verdadeira. Era ilusão, mas servia. O nível de imersividade que você atingiu era incrível, porque você transpôs a fronteira entre a verdade e ficção. E naquele cenário criado por você, tinha uma espécie de vida que você queria, com uma mulher que você queria, e que não era eu. Ou era um “eu” que você nunca teria, mas queria a qualquer custo, porque um dia experimentou algo que achou bem próximo do que achava que era a felicidade. Artificialmente, e agora não importava mais, você queria aquele momento de volta.
Não sei dizer como aconteceu, apenas aceito o que a medicina me explicou. Você se ausentou, entrou em colapso. Mergulhou na sua ficção e desligou desse mundo. Por quanto tempo, eu não sei precisar. Eu te achei assim, estendido, o olhar distante, como se tivesse contemplando algo irresistível.
Eu venho aqui, todos dias, te lembrar da nossa história e como tudo aconteceu. Refazer esse caminho me conforta e te traz de volta, nem que seja por breves instantes. Eu posso viver assim o resto dos meus dias. E você?