No lugar do outro

Percebo que finalmente entendo a inutilidade de pedir para que alguém ponha-se no seu lugar para que possa ver as coisas sob seu ângulo ou mesmo sentir a dor que você sente. Inútil. Ninguém pode sentir a dor do outro, ver o que o outro vê, pensar sob a mesma lógica alheia. Cada um é cada um. A inversão dos papéis é ineficaz no sentido de que mesmo que você se ponha no lugar do outro, o seu background é tão diferente que não haverá espaço para a assimilação semelhante face à proposição. Ainda assim, um pouco de empatia, pode ser?  

Já foi. Não é mais.

É quinta, e está chovendo aqui.

Gostaria de sair hoje do trabalho, passar na minha mãe para dar um beijo nela e, se possível, cerrar uma janta, já que ela insistiria para
ficarmos lá mais um pouquinho.
Voltaríamos para casa antes das 8, mas antes, na passada, pegaríamos um filminho água-com-açúcar e nos aninharíamos todos no sofá, comendo uma barra de chocolate.
Às 10 eu diria para vocês irem para a cama, porque a aula começa cedo…
Eu e teu pai veríamos mais um pouco de tv, e depois iríamos dormir também.
No dia seguinte não ia estar mais chovendo…
Mas entendo que a gente não consegue voltar no tempo, segurar o tempo, ou inventar um novo tempo. O tempo é aquele mesmo que permanece inalterado na nossa memória…
Sinto falta da gente. 

Para quem não botava fé, é melhor começar a acender uma vela

Há tempos tenho falado sobre isso e tenho coletado informações a respeito. Para quem desdenhava que a internet ia bater as demais mídias em termos de volume de investimento publicitário, o Projeto Inter-Meios apresenta os números. Pode ver aqui

Claro, a surra começou com a mídia revista, que pela primeira vez ficou aquém da internet. Claro, também, que a TV aberta continua soberana absoluta com 67% dos investimentos totais, seguida pelos jornais, com 10,7%. Mas estamos falando de mídias já consagradas e com muito tempo de estrada. 

Ontem assisti ao debate do Porta dos Fundos na Roda Vida, da TV Brasil. Os humoristas Ian SBF e Antônio Tabet responderam a uma série de perguntas, e a maioria voltada à curiosidade de o quanto eles estão faturando na internet e se vale a pena ou não ir para a TV. Eles não abriram exatamente os números, mas deixaram bem claro que ganham o suficiente para recusar os convites de várias emissoras, principalmente porque, além de liberdade para fazerem o que querem e como querem, o retorno é visivelmente interessante. 

Esse exemplo e outros tantos que acompanho, indicam que a maturidade do webmarketing está chegando. Mas não me iludo em achar que, com ela, virão todas as respostas que ainda temos de como se faz - bem feito - marketing e publicidade na internet. Reitero o “bem feito”, porque canso de ver ações mal feitas e sem sentido, onde quem faz e quem paga jura de pé junto que quem recebe está dando a devida moeda de troca. Ou seja, o efetivo resultado é mensurado como? Quanto valem, de fato, mil curtidas? 

Metaverso

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Essa é uma história não contada. Eu a repito apenas para você, dia após dia. 

Nós nos conhecemos no primeiro dia de trabalho. Fomos contratados para o mesmo departamento, mas para cargos diferentes. A empresa era a maior desenvolvedora de softwares gráficos e de games e despontava como uma das mais inovadoras e a que mais faturou naquele ano. Por isso, sempre buscavam jovens talentos, pessoas com nosso tipo de perfil. Você sempre teve um currículo notável. Na faculdade seus projetos eram arrojados e extremamente engenhosos. Na verdade, era muito difícil entender logo de cara os projetos que você desenvolvia, tamanha a sua genialidade. Você era vanguarda. Estava sempre à frente dos outros e talvez, por isso, alguns o tinham como visionário. Eu também me destacava como engenheira, mas minha habilidade era outra: eu transformava projetos mirabolantes em negócios milionários.

Foi assim com o protótipo que eu soube que você estava desenvolvendo no melhor estilo Bill Gates: na garagem da sua casa. Começamos a nos envolver por iniciativa minha. Eu achava muita graça no seu jeito distraído e me sentia muito estimulada pelo seu intelecto. No começo você era distante porque nunca acreditou em relacionamentos amorosos. Entendo agora que você não tinha desenvolvido habilidade para entendê-los, preferindo ficar de fora de um improvável romance que, segundo suas próprias palavras, transferia recursos inestimáveis do cérebro em funções que poderiam ser classificadas como imprevisíveis.

Dessa mistura insólita nasceu um relacionamento muito intenso, que a maioria apostava que seria um estrondoso fracasso. Cinco anos, no máximo, diziam. Mas contrariando as expectativas, nos casamos pouco depois que começamos a sair. A cerimônia, nada convencional, inverteu a tradição de os noivos ganharem presentes para a casa nova. Nós demos brindes aos poucos convidados - cerca de 30. A ideia foi minha, mas você apoiou. Decidimos que naquele mesmo dia celebraríamos dois contratos: nosso casamento e o início da nossa empresa. Distribuímos entre os convidados uma ação no valor de um por cento. Minha retórica irrepreensível os fez crer que aquilo valeria muito dali uns cinco anos.  Em contrapartida, eu pedi apenas que nossos amigos depositassem na conta da empresa, se achassem justo, um valor simbólico. Todos eles, como eu previ, depositaram voluntariamente muito mais do que o esperado. Incontestavelmente eu sabia fazer negócios. Inegavelmente, eu sabia seduzir.

Os primeiros meses da nossa convivência foram frenéticos em todos os sentidos. Você se sentia muito estimulado por mim, de forma intelectual e sexual. Era absurdamente instigante a sensação de euforia que você experimentava depois do sexo e após os debates e discussões que mantínhamos a todo momento, já que morávamos e trabalhávamos no mesmo local. Tudo se mesclava. Era uma simbiose perfeita.

Você ainda tinha dúvida sobre o que te dava mais prazer. Teorizar ou transar. Divagações filosóficas fundamentadas por argumentações muito bem construídas ou sexo, sexo, sexo e aquele torpor que tomava conta de você logo em seguida, tornando-o quase um vegetal. Mas com com o tempo, você me disse que acabara se viciando. A todo momento e mais, queria estar dentro de mim. Era uma experiência que jamais teria pensando em reproduzir em seus trabalhos, pois nunca imaginou que o amor era capaz de desencadear aquilo.

Fiquei alucinada com minhas descobertas - percebi, por exemplo, que depois de uma trepada, a química produzida em meu corpo era tamanha que seria capaz de me manter acordada por longos períodos, o que me tornava extremamente mais produtiva, mais criativa. Observei também que, a cada dia, aumentava o grau de dependência que você tinha de mim. Por outro lado, não deixei de notar que, ao contrário do que acontecia comigo, seu rendimento caía vertiginosamente.

Cheguei a um impasse. Deveria dar vazão àquela histeria que se apossava de mim depois que nossos fluidos se misturavam, ou seria melhor arranjar um jeito de ficar na superficialidade e dar a você apenas o necessário, uma espécie de ração controlada, a ponto de não romper o magnífico fluxo da sua genialidade? Mas e eu? Precisava do sexo tanto quanto você, e ainda mais, pois minha mente já se antecipava com o que viria depois.

Como sempre, fui mais razão do que emoção, e o caminho natural me pareceu ser condescendente até o ponto necessário. Contraditório, eu sei. Isso me causou enorme dor e pensei em qual seria a melhor maneira de compensar aquele mecanismo conquistado pela nossa intimidade. A dialética era estimulante, de fato, mas não substituía a adrenalina do sexo. Porém, sabia que você deveria se desintoxicar de mim, aos poucos e, de preferência, sem perceber. Afinal, você sempre foi distraído e eu contava com isso.

Estávamos indo bem. Você começou a desenvolver um game ultra sofisticado, usando como princípio uma espécie de jogos de realidades alternadas, ou arg’s, como chamamos. Com ele, criou um universo que transitava entre a realidade virtual e a concreta.

Você foi assumindo essa nova vida que tanto te fascinava e enquanto isso, literalmente era sugado para dentro dela. Passava horas modificando o código do programa a fim de conseguir tornar o game o mais real possível. Era sua nova família. Se é que um dia você quis fazer parte de uma.

Enquanto você produzia desenfreadamente e se afastava de mim na mesma velocidade, eu procurei novas maneiras de te substituir. Busquei conforto no nosso assistente que nunca foi tão brilhante quanto você, mas era um amante complacente. Ele me ajudava a manter o foco, na medida que supria minhas necessidades, sejam elas quais fossem.

Nunca imaginei que você perceberia algo. Também não fiz esforço para esconder nada. Meu pragmatismo me cegou a ponto de eu não conseguir entender que te perdia por não permitir que você se entregasse a mim da maneira que você sabia. Você nunca foi raso. Era intenso, mesmo que irresoluto. Mas ao mesmo tempo, nunca foi capaz de lutar por mim. Nem sequer argumentar contra a minha insanidade de te querer egoisticamente, usando de ti somente aquilo que me aprouvia. E me viu, sem nada fazer, a não ser sofrer do seu jeito, jogar com meu amante fazendo dele mais uma peça descartável no meu tabuleiro.
Nesse momento de dor quase física - agora eu sei - você se lançou em seu projeto, aflito em reproduzir através dele uma partícula de vida, irreal que fosse, mas perfeita.

Para minha perplexidade, você conseguiu criar algo próximo à perfeição. Seu game produzia detalhes capazes de tornar qualquer vida melhor que a verdadeira. Era ilusão, mas servia. O nível de imersividade que você atingiu era incrível, porque você transpôs a fronteira entre a verdade e ficção.  E naquele cenário criado por você, tinha uma espécie de vida que você queria, com uma mulher que você queria, e que não era eu. Ou era um “eu” que você nunca teria, mas queria a qualquer custo, porque um dia experimentou algo que achou bem próximo do que achava que era a felicidade. Artificialmente, e agora não importava mais, você queria aquele momento de volta.

Não sei dizer como aconteceu, apenas aceito o que a medicina me explicou. Você se ausentou, entrou em colapso. Mergulhou na sua ficção e desligou desse mundo. Por quanto tempo, eu não sei precisar. Eu te achei assim, estendido, o olhar distante, como se tivesse contemplando algo irresistível.

Eu venho aqui, todos dias, te lembrar da nossa história e como tudo aconteceu. Refazer esse caminho me conforta e te traz de volta, nem que seja por breves instantes. Eu posso viver assim o resto dos meus dias. E você?

Om Mani Padme Hum

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Divagações entre amigas

Depois de uma certa idade, eu acho que toda mulher dá uma pirada. No meu caso, acho que pirei antes, mas segurei a onda porque tenho fama de durona. Mas os hormônios que sempre foram nossos bodes-expiatórios para todas as situações dramáticas a que nos impomos (não só a nós, também àqueles que nos cercam) ao longo da nossa vida, de fato, depois dos 40, começam a querer ter vida própria. É como se eles nos dissessem : “ok, você nos culpou de tudo, sempre, mas agora virá a revanche. Mostraremos quem somos e a que viemos! Prepare-se, pobre mulher!”. E está feita a bagunça. É uma salada de sentimentos - desconexos, em sua maioria - de contradições, de incoerências.

Chegamos ao ponto de não nos reconhecermos mais diante de algumas situações. Chega a ser hilário o quanto viramos clichê. Estou falando no plural porque isso é um desabafo coletivo, fruto de encontros furtivos com uma amiga, aos quais, merecidamente, chamamos de “terapia”. Nessas horas, que são poucas e eventuais, e que não têm data fixa pra ocorrer, não há regras. Falamos de tudo e misturamos todos os assuntos sem nenhuma ordem, sem nenhuma cronologia. Apenas despejamos as histórias que nos ocorreram, fazemos comentários, rimos, relaxamos, tiramos algumas conclusões e trocamos um beijo de despedida sincero, singelo e quase aliviado. O que é dito ali, fica ali mesmo, ecoando pela sala de estar. Sem repercussão alguma. 

E o momento flui como somos. Apenas pessoas despretensiosas, falando de coisas que nos importam no momento.

Meu velho

Busco na lembrança alguma conversa mais profunda que tenha tido com meu pai. Podia ser um sermão, uma lição de moral, ou até mesmo uma repreensão, dessas que os pais fazem. Nada. Meu pai era um homem de poucas palavras e levava muito a sério essa coisa de mineirinho.

Como boa ouvinte eu gostava de escutar as poucas coisas que ele contava sobre sua infância ou algumas das suas andanças como motorista profissional. Mas era sempre muito sucinto e eu achava estranho alguns termos que ele usava que eu não conseguia decifrar. Sempre que ele contava uma estória, enfiava no meio das frases algo como “taiscatoda” eu não tinha a mínima ideia do que seria aquilo.

Perguntava, mas ele desconversava e dizia que ele não tinha dito nada parecido. Então, quando fui crescendo, me dei o direito de pensar que a tradução poderia ser simplesmente “tais, quais, todas”. Era como se fosse o “né” ou o “daí” dele. Vícios de linguagem de uma pessoa simples, de poucas letras e extremamente resumida. Tentei vender minha teoria para os meus irmãos, mas ninguém confirmou. De qualquer forma, me dei por satisfeita por ter conseguido entender meu pai, pelo menos daquela vez, à minha maneira.

Apesar de não ter o registro de grandes diálogos, minha memória sempre muito mais olfativa guarda o cheiro bom da colônia pós barba que ele usava todos os dias depois do banho. Antes de sair para o trabalho, ele vinha na nossa cama dar um beijo em cada um. Esse cheiro eu guardo até hoje e me enche de saudade. Minha memória visual também se recorda de, no momento seguinte ao beijo na nossa testa, ele se dirigir à cômoda do quarto e beijar também uma a uma as imagens dos santinhos que tínhamos. Eram muitos, mas ele se demorava mais ao se despedir de São Judas Tadeu, seu santo preferido.

Então, de certa forma, essa também é uma das memórias mais vivas que tenho do meu pai: a fé inabalável que ele tinha, tanto nos seus anjos e santos, quanto nas pessoas. Ele era um crente nato. Daqueles que cria em todas as histórias que lhe contavam. E isso o transformava num cara bonachão, amigo de todos, querido por todos – e inevitavelmente enganado por muitos.

Mas de todas as ocasiões em que ele acreditou sem restrições, a que me afeta de forma irreversível, foi quando ele me perguntou, ainda relutante, se eu tinha certeza de que ele iria poder voltar a usar seus sapatos engraxados depois daquela cirurgia. Eu disse que sim e que, em breve, ele estaria caminhando no sítio, brincando com os netos. O fato é que ele nunca mais voltou. Dias após a cirurgia – que foi um sucesso – ele faleceu.image

Hoje ele estaria fazendo aniversário e esse texto não é para ser triste. Porque assim como o conteúdo das conversas que tivemos e outras coisas que não foram tão boas assim, minha memória seletiva tratou de guardar apenas o melhor dele. E o melhor dele é que ele me amava – nos amava – muito. Porque seu coração era enorme e, nele, residiam suas maiores virtudes.

*Essa foto foi tirada em Porto Alegre, quando ele veio nos visitar e ficou um logo período em casa. Na tentativa de fazê-lo parar de fumar, demos um cachimbo a ele. Ele adorou, mas continuou fumando. 

Coisas que não tem preço mesmo… Dentro de um dia tão atarefado, receber um e-mail entre tantos, da filha mais nova: 

"Escutei essa música e lembrei de ti!

You tucked me in
Turned out the light
Kept me safe
And sound at night
Little girls depend on things like that

Brushed my teeth
And combed my hair
Had to drive me everywhere
You were always there when I looked back

You had to do it all alone
Bank a live
And make a home
Must’ve been as hard as it could be

And when I couldn’t sleep at night
Scary things wouldn’t turn out right
You would hold my hand
And sing to me

Caterpillar in the tree
How you wonder who you’ll be?
Can’t go far but you
Can always dream

Wish you may and wish you might
Don’t worry, hold on tight
I Promise you
There will come a day
Butterfly fly away
Butterfly fly away (Butterfly fly away)

Butterfly fly away
Got your wings, now you can’t stay
Take those dreams and make them all come true

Butterfly fly away
You’ve been waiting for this day
All along you know just what to do

Butterfly,
Butterfly,
Butterfly,
Butterfly fly away”

Tempo, tempo

Quem disse mesmo que o tempo é o melhor remédio?

Não sei quem foi, mas respondo que isso é parcialmente errado. Com o tempo aprendemos a esquecer alguns detalhes, simplesmente por uma questão de subsistência. Se ficamos atentos às minúcias podemos ir por dois caminhos: o da loucura, que implica em ficar revivendo certos momentos à exaustão, praticando um tipo de auto-flagelo, que pode ser letal; ou o da complacência, que nos faz reorganizar as lembranças de modo que elas fiquem menos desconfortáveis.

Mas então eu digo: o tempo não cura nada. Ele apenas nos faz entender que o que foi feito não é reverso. Temos que seguir adiante em nome da sanidade e da perpetuação. Não chamo isso de resignação. Chamo de sabedoria.   

Chuva na vidraça

Essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo. A frase do Caio Fernando Abreu serve perfeitamente para o dia de hoje e para os dias (meses) que se antecederam. O frio é bom porque nos faz menos sociais, e menos sociais nos obrigamos a olhar para nós mesmos e colocarmos sob uma lente os fatos.

Sim, os fatos. As pessoas e os fatos. As coisas que nos levam aos fatos e, ao mesmo tempo, longe das pessoas. O frio é bom porque com ele vem a certeza de que o calor da alma só virá quando exorcizarmos os fatos - e as coisas e as pessoas - que nos congelam. Isso é fato.